5. E o quebra-cabeça começa agora!
Presente;
Data desconhecida.
Estava completamente escuro, e sinto um pouco de medo de continuar a descer aquela escada em espiral, que não parece acabar nunca. As únicas coisas de que tenho conhecimento são os passos de Lith, logo à minha frente, e a parede ao meu lado esquerdo, na qual me apoiei até agora, com medo de cair. Por causa da minha altura, não paro de bater a cabeça na parte de baixo dos degraus que acabei de descer, e isso me irrita um pouco.
Por causa de uma batida particularmente forte, não percebo os passos da garota se distanciando, mas escuto ela falar algo.
- Aqui estamos! Cuidado com o fim da escada, e procure ficar de olhos fechados.
Tarde demais. A parede em que eu estava me apoiando até agora some de repente, e eu caio de lado, machucando o ombro esquerdo e engolindo um bocado de terra.
Sento-me no chão, cuspindo a terra e falando um bocado de palavrões. Apoio minhas duas mãos no chão para me levantar e percebo, com um susto, que eu estou vendo as minhas mãos. Estava completamente escuro até dez segundos atrás! Sento-me novamente e reparo que uma faixa reta de luz solar está entrando no cômodo em que estou. Começando onde minhas mãos estavam apoiadas (E o que parece ser o centro do cômodo), o feixe de luz aumenta para os dois lados, ao mesmo tempo em que meus olhos se acostumam com a claridade, até eu poder ver direito onde estou. Não é muito grande, e parece ser o único cômodo da “casa”.
No centro, há uma mesa redonda e grande feita de madeira escura. Em volta da mesa, estão três cadeiras, mas eu tenho a impressão de que podem caber 20 pessoas ao redor da mesa.
No canto esquerdo, e mais próximo de onde estou, há uma cristaleira com vários enfeites de madeira e algumas garrafas com líquidos de cores vivas dentro deles. No canto direito, três colchões de palha, um ao lado do outro. Dois dos colchões estão arrumados, e o que resta está com os cobertores amarrotados, como se alguém tivesse acabado de levantar. No canto oposto ao que estou, posso ver uma “cozinha”. Um fogão a lenha e uma pia marrons estão separados por balcões, também marrons. Não vejo, porém, uma geladeira, o que é meio óbvio, já que não parece ter eletricidade neste lugar.
Porém, o que me chama mais atenção é o canto oposto ao da “cozinha”. Lá, vejo uma lareira apagada, e o que realmente me chama atenção está acima dela. Duas espadas estão dispostas na parede.
A de cima é maior e parece ser maior que a minha. Sua bainha e as cordas em sua empunhadura são pretas. A espada de baixo me chama mais atenção. É bem menor que a de cima, com aproximadamente metade do tamanho. A sua cor é literalmente indefinível. No exato momento, é azul claro, porém ela muda de cor a cada piscada que dou. Sua bainha reluz de modo que não quero parar de olhar, prendendo completamente minha atenção.
- Bonita, não? Pertenceu ao meu avô por parte de pai. - Lith estava olhando para as espadas, enquanto falava,mas não consegui identificar para qual.
- As duas? - Perguntei, levantando-me
- Ah, não… Só a menor. A maior é… - Vi uma coloração avermelhada tomar conta das bochechas da garota – A maior é de outra pessoa. - Terminou ela, se virando e andando até a “cozinha”.
A garota jogou uma panela de barro que estava em cima do fogão dentro da pia e lavou as mãos. Depois, se virou e começou a andar em minha direção. Reparei que suas bochechas já não estavam mais coradas, e me perguntei o motivo da vergonha.
Enquanto ela andava, tive a nítida impressão de que ela fosse parar na minha frente, porém ela continuou para a cristaleira e, após abri-la, pegou dois copos e olhou para mim.
- O que vai querer beber? Eu acho que não seria bom você beber algo alcoólico, mas você decide – Aconselhou ela.
- Não… Só água mesmo. Obrigado – Respondi, olhando para ela e sorrindo.
Lith pegou uma garrafa com um líquido transparente de dentro da cristaleira, e colocou os copos e a água em cima da mesa. Serviu dois copos de água e sentou-se em uma das cadeiras.
- Sabe… A não ser que você esteja treinando para virar uma árvore, e eu não tenho nada contra isso, de verdade, mas você pode sentar, sabe? - A garota sorriu, mostrando dentes perfeitos, e olhou em meus olhos.
Dessa vez, eu é que fiquei com vergonha. Olhando para o chão, me dirigi à mesa e, puxando uma cadeira, me sentei.
- Eu ainda estou meio fora de sintonia… – Me desculpei – Eu gostaria mesmo de entender o que está acontecendo aqui.
- Entendo o seu ponto – Respondeu Lith – E vou te ajudar. A partir de agora, você pergunta e eu respondo, senhor sem memória.
Dei o primeiro gole da minha água e comecei a pensar na primeira pergunta.
